
A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, no que tange à exportação de pescado, tendo o filé de merluza como o seu principal produto. Mas essa relação bilateral entre os países tem passado por instabilidades e dúvidas, em áreas de fronteiras, devido ao marco sanitário brasileiro.
O retorno de empresas argentinas tradicionais à lista do Regime de Alerta de Importação (RAI), pela presença de parasitas na “safra” que vem do mar, e o fim das medidas de flexibilização por parte do Departamento de Inspeção de Produto de Origem Animal (Dipoa) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) preocupam empresários de ambos os lados.
Para ampliar assunto, a Associação Brasileira de Fomento ao Pescado (ABRAPES) conversou com o ministro Javier Dufourquet, adido agrícola da Embaixada da Argentina no Brasil. Confira trechos da conversa que teve como foco especial o comércio de merluza. Javier também trouxe a sua visão sobre o comércio de camarão.
ABRAPES – Inicialmente como você avalia o comércio de merluza entre Argentina e Brasil. Qual a importância desta relação bilateral para a Argentina?
Javier Dufourquet – Alguns embarques de merluza de empresas tradicionais argentinas estão sendo rechaçados pelo Mapa que alega a presença de parasitas no produto. Sendo assim já foi solicitada uma reunião, em caráter de urgência, entre os serviços sanitários da Argentina e Brasil. A prioridade do encontro será discutir a possibilidade de uma nova prorrogação para as empresas estrangeiras suspensas ou a retirada definitiva dessas empresas do alerta vermelho.
O governo Argentino não considera justa a medida do Ministério. A merluza é um peixe de pesca extrativa e mais suscetível à presença de parasitas microscópicos. No entanto, o fato de vir congelado inibe qualquer mal que possa ocorrer, pois o parasita está inativo. Sem contar que tem todo um processo por parte das indústrias brasileiras. Além disso, é um peixe que é consumido cozido.
É um problema que já se arrasta há pelo menos uns dois anos e que preocupa, visto que, em outros mercados como a Rússia, com forte exigência sanitária, o exportador argentino não tem problemas por parasitas. A ideia é seguir trabalhando firme junto ao Mapa para que essas exigências sanitárias por parte do Brasil sejam ajustadas.
Vale lembrar que Brasil e Argentina tem uma relação comercial já tradicional. Hoje 94% das importações que o Brasil faz provém da Argentina. E a merluza é um comércio importante para o mercado nacional e um peixe já conhecido do consumidor brasileiro. O nosso esforço é para que o produto possa ser encontrado nas prateleiras dos supermercados.
ABRAPES - O que foram essas medidas de flexibilização? Quais são as principais razões que levaram as empresas argentinas a serem incluídas na lista RAI novamente?
Javier Dufourquet – Em suma, o maior problema são os parasitas em produtos de origem animal procedentes do mar. Hoje de 17 empresas exportadoras argentinas, sete estão na lista RAI por parasitas.
ABRAPES - Com base em sua experiência, quais são as possíveis consequências dessa situação para o comércio de merluza entre Argentina e Brasil? E quais os caminhos que podemos adotar para que não haja prejuízo no comércio de merluza?
Javier Dufourquet – A questão é que se perde muito dinheiro com o retorno de um caminhão da fronteira do Brasil para a sua região de origem, mas vamos continuar motivando o exportador argentino.
Quando às medidas que possam ser adotadas, somos favoráveis ao controle, mas da forma como outros países operam, como Japão e EUA, com uma inspeção visual e não por luz negra.
A ideia é seguir dialogando com o Mapa, através de reuniões bilaterais, para que sejam considerados os limites, a forma como o mundo trabalha, em particular, com a merluza. Um peixe que vem da pesca extrativa, com defeitos, mas com as virtudes de quem saiu do mar.
ABRAPES – Quanto ao comércio de camarão, qual a sua visão sobre a relação comercial entre os países?
Javier Dufourquet – É um mercado que sofreu muito com o contrabando. Com a reabertura do mercado brasileiro, em 2021, com o Mapa, as exportações têm apresentado sinais de crescimento. Somente de janeiro a maio deste ano, entraram 34 mil quilos do produto no Brasil.
O camarão argentino tem as suas peculiaridades. Por ser do mar, é mais robusto, diferente do brasileiro, que é produzido em cativeiro. Entendo que se trabalharmos mais a promoção comercial, com ações de marketing e comunicação para posicionar o produto, inclusive em parceria com importadores, distribuidores e supermercados brasileiros, o camarão argentino vai chegar com mais força ao consumidor e impulsionar os negócios para ambos os países.
Fonte: Consultoria de Comunicação da ABRAPES
Postado em 07-07-2023 à17 17:41:17